Mitos, fatos e curiosidades sobre neurociência: Série “Os sentidos” – Sentindo o cheiro das flores.

Ah, o olfato… Com ele podemos sentir o cheiro da chuva chegando, da padaria avisando a nova fornada de pães, daquele perfume caro ou até do caminhão de lixo passando pelas nossas ruas. O olfato (assim como o paladar) é capaz de detectar uma série de substâncias químicas espalhadas no ambiente e, por isso, é também chamado de “sentido químico”. Do ponto de vista evolutivo, ele é um dos sistemas sensoriais mais antigos, mas também é o menos acurado em seres humanos, sendo que muitos outros animais possuem habilidades olfatórias muito melhor desenvolvidas. Essa diferença pode residir no número maior de receptores olfatórios e à área cerebral proporcionalmente maior dedicada a esse sentido nas outras espécies. Ainda assim, nós conseguimos processar uma grande quantidade de informações sobre a identidade, concentração e qualidade de uma gama de estímulos químicos, chamados odorantes.
Geralmente, a maioria dos cheiros é formada por misturas de muitas outras moléculas odoríficas. É assim que, por exemplo, é constituída a fragrância de um perfume ou de um determinado vinho. E como percebemos essas substâncias através do olfato? De uma forma geral, os odorantes interagem com neurônios receptores especializados na percepção de cheiros e localizados em uma pequena área do epitélio da membrana mucosa, o epitélio olfatório, que recobre o teto do nariz. Os axônios (prolongamentos das células neuronais responsáveis pela condução do impulso nervoso) provenientes desses receptores se projetam diretamente para os neurônios localizados no bulbo olfatório, região cerebral que realiza o processamento primário da informação olfativa. Por sua vez, esta região envia informações para uma área chamada córtex piriforme, localizada no lobo temporal e responsável pelo reconhecimento dos cheiros. Adicionalmente, os neurônios das porções olfatórias ainda enviam suas projeções celulares para outras estruturas cerebrais, tais como hipocampo e amígdala, envolvidas em processos de memória e em experiências emocionais, respectivamente. É a interação dessas várias regiões que torna possível a identificação dos diversos odorantes e o início de diversas reações fisiológicas de acordo com o estímulo olfativo.
Por exemplo, o olfato pode estimular respostas viscerais, como aumentada salivação devido ao aroma de uma comida gostosa ou ânsia de vômito por causa de um cheiro enjoativo. O sistema olfatório pode ainda influenciar nossas funções endócrinas e reprodutivas. Hoje em dia, sabe-se que mulheres que costumam conviver em um mesmo lugar por muito tempo (em casa ou no trabalho, por exemplo), tendem a ter seus ciclos menstruais ocorrendo na mesma época, um fenômeno que parece ser mediado pelo olfato. Esse sentido ainda influencia as interações entre mãe e filho. Os bebês reconhecem suas mães depois de algumas horas depois do nascimento pelo cheiro. Da mesma forma, as mães também identificam e conseguem diferenciar o cheiro de seus filhos dentre os de outras crianças que não pertencem a elas. Um determinado cheiro pode ser ainda associado com uma memória, podendo desencadear uma determinada reação inerente ao momento que a pessoa sentiu aquele odor específico. Sentir o cheiro de um perfume pode te lembrar de seu namorado(a) ou o aroma de uma comida pode te causar enjôo porque, da última vez que você comeu algo que cheirava dessa forma, passou muito mal. Com isso, o nosso olfato é mais uma excelente ferramenta para experienciarmos os estímulos que estão à nossa volta e um sentido muito envolvido na formação de nossas memórias e emoções.

Até o próximo post!

Equipe Forebrain.

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